quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Stand by me

Entrou na sala apressado, revirou gavetas, potes, caixas. Foi até a estante, parou, olhou por alguns minutos. Passou o dedo pelas lombadas dos livros. Nada. Não estava lá.
Saiu para a rua, caminhou por entre as pessoas olhando para um lado e para outro, encarando as pessoas. Olhou vitrines, outdoors, sentou-se na praça, ficou observando os pombos comendo e as folhas dançando com o vento. Tudo em vão. Voltou para casa.
Tomou um banho demorado, comeu alguma coisa, encheu uma enorme caneca de café e sentou-se diante do computador. Pesquisou, leu, tentou refazer caminhos para ver se não havia deixado para trás, mas continuava sem achar. Tinha que estar lá em algum lugar. Onde? Deitou-se na cama angustiado pela dúvida. Rolou para um lado, para o outro e, quando achava finalmente ter encontrado, sem mais nem menos, foi nocauteado pelo sono.
Diferente da maioria dos dias, acordou antes do despertador. Colocou na conta da dúvida. Com quem tomou o café da manhã, embalado pelo som do ponteiro do relógio que, tal qual o coração do conto do Poe, não o deixava esquecer que o tempo estava se esgotando.
Foi até o banheiro, escovou os dentes. Sentou-se no vaso atendendo ao chamado da natureza. Fechou os olhos, respirou fundo, teve a sensação que aquele era o primeiro momento de sossego em muito tempo.
Ao abrir os olhos, contemplou-a bela e formosa a encará-lo, como se estivesse ali há muito tempo esperando por ele. Sabia que não poderia perder tempo, precisava agir, conversou com ela, não podia deixá-la partir. Arrependeu-se do costume de não levar o telefone para o banheiro.
Saiu apressado do banheiro, pegou a primeira caneta que encontrou e desenhou com traços e palavras em um embrulho de pão, tal qual viera ao mundo sua tão aguardada ideia.


Junior Gros

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

À queima-roupa

Um manto acobreado caía sobre a cidade decretando o fim do dia. Caminhava eu, apressado como sempre, chateado como nunca. Andar por aí sem ouvir música me deixa assim. Tal ausência que me permitiu ser testemunha ocular e auditiva de um ataque brutal.
Estavam ali, frente a frente, dois jovens, um homem e uma mulher, olhando-se olhos nos olhos. Cenário perfeito para uma cena romântica, mas não foi o que aconteceu. Sem muita cerimônia, ela sacou e disparou contra ele uma sonora rajada, deixando-o atônito enquanto virava-lhe as costas e saía caminhando rumo ao sol poente.
Ele foi atingido em cheio, sequer teve tempo de reagir.
Estático, no meio da calçada, enquanto ainda ressoavam os disparos "eu-não-sinto-mais-nada-por-você". Ele observava seu queixo, junto ao seu orgulho jogado ao chão, aos pés do povo que passava alheio ao seu infortúnio.

Junior Gros

sábado, 8 de agosto de 2015

Tá em falta

Sofia seguia sua rotina diária, tomava seu café enquanto lia as notícias na tela do computador. Pulava de página em página até que o título de uma matéria chamou sua atenção: "Homem vende amor pelas ruas da capital". Nunca fora muito romântica, mas o título fez com clicasse no link, tratava-se de uma crônica. Leu-a toda. Falava da figura de um sujeito que escrevia cartas de amor a preços simpáticos. Riu daquela história, terminou seu café e saiu para trabalhar. 
Durante todo aquele dia a história do homem que vendia amor povoou seus pensamentos. Ao fim do expediente, movida pela curiosidade, rumou para o centro da cidade, tinha que ver com seus próprios olhos. 
Parou em frente ao carrinho de pipoca, pediu uma doce com coco e perguntou ao pipoqueiro onde ficava o homem que vendia amor. O moço, após receber pela pipoca, a instruiu que andasse até o fim da quadra, atravessasse a rua, lá encontraria o mercado das flores. O homem que ela procurava estaria logo adiante. Seguiu as instruções que recebeu e logo após a última banca avistou um guarda-sol, sob o qual se encontrava um homem, o homem que procurava. Andou até o guarda-sol e estacou diante da mesa, sobre a qual repousava uma  máquina de escrever portátil verde e uma e uma pilha de folhas em branco e tinha atrás de si um sujeito de não mais que trinta e cinco anos que pareceu não notar sua presença enquanto batia `a máquina. Diante da distração do sujeito resolveu interrompê-lo. 
_ Boa tarde. 
_ Boa tarde, moça.  
_ É você o homem que vende amor?  
_ É o que dizem.  
_ Mas você vende? 
_ Escrevo cartas.  
_ De amor?  
_ Também. Dentre outras coisas. 
_ Como assim? 
 O homem apontou com o dedo para uma tabela fixada na parte frontal da mesa. Na qual havia uma serie de opções como declaração, pedido de desculpas, rompimento, saudade, entre outras. _ Qual a moça vai querer?  
_ Nenhuma. 
_ Então por que veio até aqui? A moça é repórter?  
_ Não, sou bancaria. Vim aqui porque não acreditei quando me disseram que havia na cidade um homem que vende amor. 
 _ Por que não acreditou? 
_ Para mim esse papo de amor é pura conversa pra boi dormir, jogada marketing. 
_ Também acho. 
_ Então você não acredita no amor? 
_ Não. 
_ Como pode vender algo que não acredita?  
_ Eu não vendo nada, apenas escrevo cartas. As pessoas vem até mim querendo conquistar outras pessoas. Pedir desculpas ou até mesmo dizer que odeiam. Eu simplesmente coloco isso tudo no papel.  
_ Mas a placa diz que você vende amor.  
_ Isso é só para atrair o povo. 
_ É um tanto desonesto, não é?  
_ Não. Simplesmente ajudo pessoas a dizer o que sentem mas não conseguem. 
_ Ninguém nunca chegou aqui querendo comprar amor? 
_ Sim, acontece o tempo todo. 
_ O que você diz? 
_ Digo que está em falta.  
_ Escuta, moça. Se não quer uma carta, pode me dar licença que eu tenho uma porção delas para terminar?  
_ Fique à vontade. Já consegui o que queria.  
_ Atrapalhar meu trabalho?  
_ Não. Provar que esse papo de amor é conversa fiada para vender perfumes e diárias de motel no mês de junho. 
 Sofia virou as costas e saiu, deixando para trás o vendedor de amor. No dia seguinte, voltou ao lugar onde ficava o homem das cartas, não encontrou ninguém. Perguntou a uma das vendedoras do mercado de flores onde estava o vendedor, ela lhe entregou um bilhete escrito à mão que dizia: "Moça, você tinha razão, sou um farsante. De hoje em diante, me dedicarei a mudar a vida das pessoas. Atenciosamente, Anselmo." Dois anos se passaram e Sofia jamais ouviu falar de Anselmo novamente, até noite passada. Quando, insone, ligou a tevê e ao zapear as os canais, deparou-se com a figura do ex-vendedor de amor em um daqueles programas de entrevistas que são exibidos nas madrugadas. Falava sobre o livro que acabara de lançar, um autoajuda chamado "O amor da minha vida sou eu".

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Divisão de bens

No começo, pensei que fosse eu. O tempo passou, pensei que talvez fosse você. Não era eu, nem você.
Primeiro você reclamou das perguntas demais, depois da ausência de dúvidas.
Antes me importava demais, depois, de menos.
Acho que não tinha pelo que interessar-me. Tu me desafiavas, isso me mantinha ligado.
Mas faltava-lhe o ar, era o que me dizias. Abri a janela, reclamou do frio.
Tomava-me tempo descobrir o que querias, o que te agradava. Tanto tempo, que cheguei a perder-me nos dias, nas minhas prioridades, meus desejos.
Por isso, hoje tomei uma decisão. Ficarás tu com a vida dita real, com pessoas reais, trabalho real, problemas reais. Afinal, tu sempre foi melhor lidando com gente do que eu.
A mim, caberá o mundo escrito, todas as histórias, fantásticas ou não. Afinal, fantasia sempre foi meu forte.
Peço-lhe apenas que tragas, de vez em quando, anotados incidentes que julgar interessantes, que talvez possam servir de matéria prima para novas histórias.
Separar os caminhos é o melhor a ser feito. Pois, há muito que vivemos em cabo de guerra para decidir que caminho trilhar.
Agora, com tudo resolvido, vamos dormir. Você precisa levantar cedo e levar este corpo ao trabalho, para trazê-lo ao fim da tarde, pois preciso escrever.
Boa noite.

Junior Gros.

sábado, 13 de julho de 2013

No meio do caminho tinha uma pedra

O ano era 1992, em uma tarde qualquer, meus pais faziam uma arrumação. Dentre as muitas caixas espalhadas pela casa, uma me chamou a atenção, cheia de velhos e empoeirados discos de vinil. Eram os anos das fitas k-7, portanto, os discos de vinil eram então, quase obsoletos. Revirando a tal caixa, encontrei de discos de trilhas de novelas a Roberto Carlos. Encontrei inclusive, um disco com uma dedicatória escrita pelo meu pai, endereçada à minha mãe. Dentre todos aqueles disco, um em especial chamou minha atenção, era um álbum duplo, na capa apenas uma ilustração e o nome do artista, um tal de Jimi Hendrix.
Perguntei aos meus pais que disco era aquele e por que jamais havia ouvido ele tocando em nossa casa. Meu pai, prontamente respondeu que havia ganhado o tal disco de um amigo seu, que trabalhava em uma rádio. Disse também que o tal Hendrix era um músico fabuloso, capaz de tirar sons da guitarra usando a boca. Minha mãe, por sua vez, tomou para si a tarefa de explicar o motivo pelo qual o tal disco jamais havia sido tocado em nossa casa. Segundo ela, o tal disco tratava-se de uma “tremenda dor de barriga” e, se dependesse dela, já teria ido para o lixo.
Passado um tempo, estava sozinho em casa ouvindo rádio, entediado com a programação, resolvi procurar algo diferente pra ouvir. Comecei a revirar as opções musicais disponíveis em casa e lá estava ele, o disco do tal guitarrista, perdido entre tantos bolachões. Escolhi aleatoriamente um dos dois discos na capa, coloquei no aparelho e escolhi a canção. Lembro-me do nome até hoje, “Sunshine of your love”. Foi o disco começar a rodar e a música começar a tocar, para me sentir como se tivesse sido atingido por um raio. Foi como se aquilo abrisse em mim um novo canal sensorial. Não sei como, nem por que, mas daquele dia em diante, não fui mais o mesmo. O dia em que descobri o tão falado Rock n' Roll.
Os anos passaram e, guiado pela minha curiosidade, passei a pesquisar coisas diferentes. Bandas, sonoridades, estilos. Sempre enveredando para as coisas mais pesadas e mais rápidas.
Aos quinze anos, ganhei do meu pai meu primeiro violão, dado. Aos 16, comprei minha primeira (e única) guitarra. Embora muitos dos grandes mestres sejam autodidatas, não era meu caso, procurei então alguém para me ensinar a tocar. O fato de ser canhoto e ter invertido a posição das cordas da guitarra, fez com que sempre alguém sempre falasse do Hendrix ao me ver tocando. Devo dizer que, exceto pela canhotice, nada havia em comum entre o rei das seis cordas e eu. Aprendido o beabá da coisa, montei minha primeira banda, que durou apenas um ensaio. 
Anos depois, veio a segunda banda. Com a qual fiz minhas primeiras apresentações, organizei e toquei em festivais e fiz minhas primeiras viagens para tocar fora do meu quintal. No meio disso tudo, a falta de coordenação motora e, por que não dizer, de talento, me levaram a deixar a guitarra de lado e voltar minhas forças somente ao vocal, função que exerci até o último ensaio.
Entre idas e vindas, foram quase dez anos vivendo a experiência de tocar em uma banda. Período que me proporcionou conhecer gente nova, lugares novos. Descobrir do que era realmente capaz. Foi talvez o período em que vivi de forma mais intensa até hoje.
Nada disso teria acontecido se não tivesse colocado aquele disco velho e empoeirado para tocar. Talvez, hoje em dia, compartilhasse do mesmo gosto musical do resto da minha família. Talvez meu armário apresentasse uma variedade maior de cores. Talvez. Talvez. Talvez.
Por uma obra do acaso, o Rock entrou na minha vida. Tenho uma amiga que diz que acasos não existem. Se isso for mesmo verdade, o destino fez com que eu escolhesse o rock, ou será que foi ele quem me escolheu? Não sei. Creio que nunca saberei. O que sei é que agradeço ao meu pai por não ter se livrado do vinil antes de eu poder conhecê-lo.
Quanto ao disco, guardo até hoje. Um deles ao menos. O outro, assim como a capa, sofreu a ação do tempo, ficou pelo caminho. Mesmo não tendo equipamento para ouvi-lo, guardo com carinho. É a relíquia dessa minha história de amor à musica, ao estilo de vida, que une pessoas há décadas e continuará unindo. Pois, o que bom não tem prazo de validade.
Junior Gros.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Souvenirs

Não há carrasco como a memória. Você pode fugir, se esconder, trocar de nome, mas, jamais conseguirá livrar-se das lembranças. Por quê? Embora elas estejam todas armazenadas dentro do cérebro  todo o seu sistema sensorial pode servir de faísca para, em uma fração de segundos gerar uma descarga forte o suficiente para desenterrar tesouros [ou coisa que o gato enterrou], dos confins mais remotos da sua memória. Digo isso por experiência própria. No meu caso, o fio desencapado tem localização conhecida, fica acima da boca e abaixo dos olhos.
Minha memória olfativa é tão certeira que, um breve contato como cheiro de óleo de linhaça, consegue me fazer lembrar do atelier onde fiz aulas de pintura, mesmo após quase vinte anos. Ou lembrar da minha primeira aula de guitarra, ao sentir um cheiro específico de madeira. Olhando por esse lado, ter essa facilidade de conexões sensoriais é ótimo. Realmente é. Porém, há o outro lado da moeda, o das lembranças não tão inocentes.
Dia desses, estava em uma esquina qualquer, quando alguém, uma mulher, passou por mim e dobrou a esquina. Mal a guria passou, seu perfume foi percebido pelo meu olfato e Bum! Imediatamente fui soterrado por uma avalanche de lembranças e sensações. Aquele perfume, literalmente, me fez sentir na pele o poder de uma memória. Cada toque da pele, cada textura, cada roçar de unhas. Juro que consegui até sentir na ponta da língua o sabor dos lábios, do corpo, enfim. Por um instante, quase deu para ouvir os sussurros ao pé do ouvido.
Quando dei por mim, estava ali, parado na calçada, olhando para o nada. Demorei um tempo para lembrar para onde estava indo. Tudo culpa da minha memória. Se todo super-herói possui um ponto fraco, uma criptonita, comigo, um simples mortal, não seria diferente. Minha criptonita é vendida em frascos de varias cores, marcas e tamanhos. Estão espalhados por aí em pescoços, mãos, colos. Usados pelas vilãs que me põem na lona. Estão por aí, em corpos de mulheres.

Junior Gros.

domingo, 26 de agosto de 2012

Caixa postal

Com o telefone nas mãos, teclei os números, cheguei a colocar o polegar sobre o botão para ligar, hesitei. Fiz isso umas três ou quatro vezes, até que, de olhos fechados, como que querendo parecer inconsciente, inconsequente, liguei.
 Tuuu... Tuuu... "Sua chamada foi encaminhada para..."
Não foi dessa vez que ouvi a voz dela novamente. Gosto da voz dela, tem um timbre doce, que transmite serenidade, ao menos quando está calma (nunca disse isso a ela, mas a voz dela ficava muito sexy quando estava irritada). Não que se trate de uma voz daquelas dignas das grandes cantoras, divas do rádio. Gostava de ouvi-la cantar. Gosto da voz feminina, não de todas, pois há aquelas que são um tanto, como diria minha avó, "ardidas aos ouvidos".
Tenho saudade, não apenas da voz, mas dela como um todo. Mas a voz, nossa, fico arrepiado só de lembrar, sobretudo daqueles momentos em que dividíamos o mesmo espaço, em que falávamos apenas um para o outro, mais ainda, nos momentos em que a voz parecia um sopro ao pé do ouvido. Algumas pessoas aprisionam pássaros em gaiolas, para ouvi-los cantar. Até que não seria má ideia. Não aprisioná-la, claro, isso é cárcere privado. Mas, acho que não haveria problema algum em tê-la gravado falando em algum momento. Onde estão os gravadores quando precisamos deles?


Junior Gros.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A vidente

A campainha tocou...tocou...tocou. “vou ignorar, talvez a pessoa desista.”
Pééééé! “Que maldição, deveria haver uma lei proibindo as pessoas de ir à casa das outras aos sábados de manhã. Principalmente se o visitado, assim como eu, estiver de ressaca.”E a campainha toca novamente. “Não tem jeito, vou ter que atender.”
Vou até a porta, espio pelo olho mágico. Do outro lado, um sujeito esquálido, vestindo terno, sua aparência lembra muito um agente funerário. “Será que eu morri? Não, não me sentiria tão podre se estivesse morto. Até porque se eu estivesse morto, não seria a minha campainha que ele tocaria.” Abro a porta.
-- Bom dia.
-- Bom dia, pois não.
-- O senhor e o Senhor João?
-- Você vem fazer perguntas difíceis a essa hora. Volte ao meio-dia e saberei a resposta.
Com cara de quem não achou a menor graça, o sujeito olha o relógio.
-- Sim, sou eu, em que posso ajudá-lo?
-- Senhor João, trago comigo uma intimação para...blablablabla...
Macacos me mordam, não acredito que depois tudo, ela ainda quer guerra”
-- Ok, onde eu assino?
-- Na linha pontilhada.
-- Algo mais?
-- Não senhor, somente isso. Tenha um bom dia.
-- Obrigado.
O sujeito vira as costas e sai andando em direção ao elevador. Fecho a porta, o ranger das dobradiças me lembram da ressaca.
Não lembro de muita coisa, mas a noite deve ter sido boa, bem, nem tanto, se tivesse sido mesmo boa, não estaria sozinho na cama.”
Analgésico, preciso de um analgésico. A gaveta do criado mudo”. Nada. ”A cozinha”. Nada. “Claro, o armário do banheiro”. Nada.
Não sobreviverei até o fim do dia com essa maldita dor de cabeça. O jeito é ir até a farmácia.
Já sei, vou comer alguma coisa, talvez ajude”. “Vamos ver o que tem na geladeira”. Só água. “Ainda bem, essa sede tá me destruindo.”
Vou até o armário da cozinha. "Um macarrão instantâneo não cairia mal”. Nada.
Vou ao quarto, troco de roupa. Minha cabeça dói. Vou ao banheiro, me olho no espelho, minha aparência tá pior que a de um pedinte.
Abro a porta, caminho pelo corredor. Minha cabeça dói. Posso ouvir a vizinha com o volume do som no talo e o pior, ela canta junto. Minha cabeça dói ainda mais. Chamo o elevador. Meu estômago também dói.
O elevador chega, entro, a porta se fecha. Não lembrava o quanto aquela geringonça é barulhenta. Minha cabeça dói. “Nunca mais vou beber”.
Chego na farmácia.
-- Me dá um analgésico.
-- Qual? Pergunta a balconista.
-- Para dor de cabeça.
Em tom de de deboche ela pergunta:
-- Ressaca?
-- É. Tá na cara, né?
Ela sorri e vai até o fundo da farmácia e volta trazendo com ela um punhado de coisas.
-- Tome esses aqui, até o fim da tarde você se sentirá novo.
-- Assim espero.
Ela sorri. Retribuo ao sorriso e completo.
-- Escute, você é minha testemunha. Nunca mais vou beber de novo.
-- Não que eu não acredite na sua determinação, mas se o senhor soubesse a quantidade de vezes que eu ouço isso todas as semanas...
-- Acho que o verei novamente, comprando o mesmo “combo ressaca”.
Saio da farmácia, entro no restaurante, pego algo para comer. Na volta pra casa, penso nas palavras da moça da farmácia. 
Promessas. O ser humano vive delas. De fazê-las e quebrá-las. Prometendo isso, aquilo. Prometendo não mais prometer.
Em casa, como, ou melhor, tento comer. Tomo os remédios, alguns deles são ruins feito a peste. Minha cabeça ainda dói.
Deito na cama, um cochilo me fará bem.
O telefone toca...toca...toca. “Hoje é o dia”.
-- Alô.
-- João, como é que tu tá?
-- Horrível.
-- Deixa disso. Tô ligando pra te convidar pra um churrasco daqueles. Vamos lá, tomar umas cervejas.
-- Cerveja? Nem a pau. Se eu for, ficarei no suco.
Mesmo a contragosto, vou ao tal churrasco.
Chegando lá, nem bem me sento vem um balde cheio de cervejas e um copo.
É. A guria da farmácia tinha razão. Será que ela tem os números da loteria?”

Junior Gros

sábado, 2 de junho de 2012

A saga de Waldinho

 O nascimento de uma criança por si só já é motivo de festa, quando esse nascimento representa mais do que a chegada que um novo membro para família, mas a continuidade do legado, é um acontecimento ainda mais importante. A expectativa era grande pela vinda do novo herdeiro, o menino daria continuidade a linhagem da tradicional família de palhaços.
 O garoto nasceu, ganhou o nome de Waldemar, nome importante dentro do universo de sua família. Nos primeiros meses de vida não havia diferença entre o pequeno Waldemar e as demais crianças da sua idade, aí é que estava o problema essa normalidade inquietava a família, sobretudo de seus pais. Afinal, não era natural um descendente de uma lendária família de palhaços não ter graça. Não que fosse completamente insosso, mas era meramente “engraçadinho”, tal qual uma criança comum, causava nas pessoas não mais que o riso comum, provocado por quedas, ou por sorrisos da sua boca desdentada.
 Os meses passaram e Waldemar, ou Waldinho como era chamado pela família, continuava o mesmo, sua normalidade por muito pouco não causou a separação de seus pais, afinal, era inconcebível um ícone da palhaçada gerar fruto tão sem graça. A mãe, indignada com tamanho ultraje, fez questão de um exame de paternidade, o resultado não poderia ser outro, o garoto era filho de ambos, era fruto daquela família.
 Quando chegou a hora de ir à escola as coisas pioraram, Waldemar tinha cara de palhaço, pinta de palhaço, mas não tinha graça. Seus pais o incentivavam a passar muito tempo com seus avós e tios, talvez assim encontrasse seu “palhaço interior”, embora houvesse boa vontade por parte de toda a família, Waldinho não mudava, acontecia justamente o contrário, sua aparência era motivo de piadas constantes, afinal, que palhaço era aquele que não tinha graça?
 À duras penas Waldemar sobreviveu ao ensino fundamental. Tornara-se um adolescente recluso, imerso em livros e filmes. Quando não estava na escola, estava trancado em seu quarto, lendo, escrevendo, ouvindo música. Falava pouco, quando se expressava era de maneira ácida e irônica, não tinha muitos amigos, na verdade colecionava desafetos, situação que o fez começar a praticar boxe. O que começou como uma forma de defesa passou a ser uma paixão, assim como a literatura.
 Aos 25 anos de idade Waldemar era um lutador de sucesso, escritor cultuado, mas continuava sem graça. Nas reuniões de família, nas raras ocasiões em que sua ausência era questionada, a pergunta sempre vinha acompanhada com um certo tom de pena, principalmente quando eram comentadas suas aparições em programas de televisão ou capas de revistas, Waldemar era a ovelha negra da família, conhecido, cultuado e sem graça.
 Waldemar era dono de seu mundo. Era quem sempre quis ser. Não o palhaço dos palhaços, não o futuro gênio que sua família tanto esperava. Apenas o autor do próprio espetáculo. Nu, cru, de cara limpa e, assim como a vida real, nem sempre agradável.
Junior Gros.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O intruso

Já havia algum tempo que vivia sozinho na casa que pertencera a seus pais, lugar onde cresceu e para o qual voltou após a morte do pai. Não saía para a rua, não recebia visitas além do jardineiro, que aparecia uma vez por mês e do entregador da mercearia, que aparecia quinzenalmente para trazer mantimentos e receber.  
Rotina que seguiu até aquela tarde ensolarada, em que após pegar a correspondência (o carteiro aparecia de vez em quando), no caminho entre o portão e a casa, viu de longe alguém sentado debaixo de uma das árvores do jardim, aparentemente cochilando. De longe, não conseguia identificar quem era. O sol deixava sua vista embaçada, mas via o suficiente para saber que havia uma pessoa lá. 
Foi até uma pilha de galhos que havia sido deixada pelo jardineiro, apanhou um pedaço de pau e, cuidadosamente, andou na direção da árvore sob a qual o estranho dormia. Ao se aproximar, deparou-se com a figura de um rapazote gorducho, cercado por caroços de frutas. Era estranho, embora não soubesse de quem se tratava, aquele rosto não lhe era estranho, já o vira antes. 
Tomado de dúvida e medo, bateu com o porrete na sola do tênis do dorminhoco, este acordou preguiçosamente, bocejou e o cumprimentou como se já o conhecesse. Ainda mais intrigado, olhou para o estranho e perguntou quem ele era e o que fazia ali. Com o mesmo ar debochado,  ele o encarou e disse que aquilo não o espantava, afinal, após tanto tempo, não era de se admirar que não lembrasse de como era aos quatorze anos.  
  
Junior Gros.