segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O intruso

Já havia algum tempo que vivia sozinho na casa que pertencera a seus pais, lugar onde cresceu e para o qual voltou após a morte do pai. Não saía para a rua, não recebia visitas além do jardineiro, que aparecia uma vez por mês e do entregador da mercearia, que aparecia quinzenalmente para trazer mantimentos e receber.  
Rotina que seguiu até aquela tarde ensolarada, em que após pegar a correspondência (o carteiro aparecia de vez em quando), no caminho entre o portão e a casa, viu de longe alguém sentado debaixo de uma das árvores do jardim, aparentemente cochilando. De longe, não conseguia identificar quem era. O sol deixava sua vista embaçada, mas via o suficiente para saber que havia uma pessoa lá. 
Foi até uma pilha de galhos que havia sido deixada pelo jardineiro, apanhou um pedaço de pau e, cuidadosamente, andou na direção da árvore sob a qual o estranho dormia. Ao se aproximar, deparou-se com a figura de um rapazote gorducho, cercado por caroços de frutas. Era estranho, embora não soubesse de quem se tratava, aquele rosto não lhe era estranho, já o vira antes. 
Tomado de dúvida e medo, bateu com o porrete na sola do tênis do dorminhoco, este acordou preguiçosamente, bocejou e o cumprimentou como se já o conhecesse. Ainda mais intrigado, olhou para o estranho e perguntou quem ele era e o que fazia ali. Com o mesmo ar debochado,  ele o encarou e disse que aquilo não o espantava, afinal, após tanto tempo, não era de se admirar que não lembrasse de como era aos quatorze anos.  
  
Junior Gros.