segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Vira mundo, vira latas, vira...sabão?

Flutuava em sensações, gostos, cheiros. Uma algazarra me trouxe novamente a realidade, um amigo correndo pra cá, outro pra lá, quando abri a boca para perguntar o que estava acontecendo, senti meu pescoço apertado. Te peguei, peste! Um riso jocoso surge vindo de trás, enquanto sou suspenso no ar e jogado dentro de uma gaiola.

Vi-me cercado de caras assustadas, umas mais, outras menos. Havia um que chorava feito um recém nascido, mais algumas paradas, novos “passageiros”, paramos, a porta se abriu, novamente aquela voz. Chegamos! Espero que gostem do seu novo lar! Todos ganharam quartos individuais, dentro, um pote com água, um prato com outra coisa que me disseram ser comida, tenho minhas duvidas, afinal, até hoje minha fonte de alimento era o que havia nas lixeiras, nos dias de muita sorte, um ser bondoso jogava um pedaço qualquer de carne, que era prontamente dividido com os outros, por bem, ou por mal.


Esse “novo lar” é diferente do que isso sempre significou pra mim, afinal meu lar sempre foi o mundo, sem paredes, as estrelas como cobertura, a lua como abajur, a luz do sol como despertador. Quando chovia, qualquer caixa de papelão ou pilha de entulhos virava um abrigo. Desde que me lembro vivi pelas ruas, aqui e ali, sem rumo, sem parada, muito amigos, alguns amores, alguns deles que me fizeram passar dias e noites andando por ai, me digladiando com outros como eu. Outros me fizeram e fazem uivar para lua em algumas madrugadas. Não dormir ao relento não parece má idéia, as luzes se apagam.


Hoje cedo levaram uma das pequenas, pessoas vieram, olharam, apertaram e a levaram, espero que ela seja feliz, melhor que virar sabão. Um malandro disse que esse é o destino de quem não é escolhido, não sei o que desejar.

Junior Gros