terça-feira, 6 de setembro de 2011

Ticket Ride


Tarde da noite, quase dia. Entro na estação ferroviária, o saguão está quase vazio, sento em um dos bancos e espero, o trem demorará a chegar. É estranho estar nessa estação, me traz lembranças que não são minhas, me faz lembrar as histórias que meu avô contava sobre sua juventude. A ida dele para o Rio de Janeiro para servir o exército, anos mais tarde o trajeto de ida e volta para o trabalho. Por fim a música dos Demônios da Garoa que fala sobre partir sem querer ir.
Estações de trem me remetem a filmes também, cenas tristes, cenas alegres, cenas eletrizantes, como a do tiroteio em “Os intocáveis”, por exemplo. Enfim, sem qualquer glamour ou emoção aqui estou, sentado revirando memórias enquanto o tempo passa.
Por algum motivo o cheiro da madrugada me fez lembrar o tempo em que passava noites em rondas pela cidade, conversando sobre tudo, vendo o dia nascer. Foram muitos amanheceres, dias em que fui me deitar ao som dos bocejos da cidade que despertava. Tempo em que embora sem planejamento minha vida andava nos trilhos.
No banco ao lado um casal troca caricias, ela chora. Ao longe o trem buzina, não demora e avisto a locomotiva se aproximando, o trem para, o casal levanta, se abraça, um último beijo, ela embarca, fica acenando da janela. Levanto, entrego o bilhete ao fiscal e embarco. Mesmo sem ter para quem acenar estendo a mão para fora, me despeço da cidade enquanto o sol nasce.

Junior Gros.