segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Laços

A fama do mágico correu mundos, todos queriam ter seus sonhos realizados. Sonhos que não mais se restringiam a coragem, coração ou um cérebro. As pessoas vinham de todos os cantos em busca de beleza, respostas, longevidade e até vida eterna.

O mágico, antes esfarrapado e miserável. Hoje vive em um castelo digno dos reis das grandes nações, o qual tem seus portões tomados por multidões todos os dias. Em seu interior o grande mágico atende aos fiéis, sentado em seu trono de ouro, sempre disposto a ajudar a todos, mediante a módicas doações, afinal tudo na vida tem seu preço. Sempre cercado de belas servas das mais diversas etnias e guardiões de aço.

Esquecido por meu mestre e criador, me juntei a um casal de peregrinos e seus filhos, artistas de circo que viajavam em busca do grande mágico. Durante os dias viajei pendurado do lado de fora da carroça. Durante as noites servi de diversão para as crianças. Ao mesmo tempo em que me senti bem por estampar sorrisos naqueles rostos sofridos, sentia a angustia da espera pelo momento em que tudo isso chegue ao fim.

Após dias na estrada, chegamos ao castelo. Passamos uma tarde e uma noite esperando na fila até finalmente podermos estar na presença do grande mágico. Levado por uma das crianças observei quando o homem foi até o mágico, entregou-lhe um saco contendo suas ultimas moedas, dizendo que desejava reencontrar a alegria para si e sua família. O mágico olhou para o homem e para seus filhos e disse que deveriam comprar uma nova lona, pois o circo era a alegria e a razão de suas vidas, devolveu então o saco de moedas ao homem, que agradeceu e se dirigiu a porta.

Antes de chegarmos à porta, o menino que me carregava disse ao mágico que eu também tinha um desejo, o mágico então pediu que nos aproximássemos, chegamos mais perto e o mágico olhou-me nos olhos e perguntou qual era meu desejo, disse a ele que desejava livrar-me das cordas que me controlavam. O mágico olhou-me novamente nos olhos e disse que não podia fazê-lo. Chamei-o de fraude. O mágico sorriu e disse que na verdade poderia simplesmente cortar as cordas, mas que isso não me faria livre, mas sim aleijado. Perguntei a ele como poderia ser livre então. Ele olhando-me fixamente respondeu que deveria me livrar das cordas. Sem entender, sem dizer uma palavra apenas olhei para seu rosto. O mágico então disse que eu só seria livre quando desatasse eu mesmo aqueles nós, pois eles não só me prendiam e controlavam como serviam de muletas.

Algumas noites mais tarde, assisti a volta da alegria aos rostos daquele casal e de seus filhos, ainda com os sinais dos nós em meus pulsos.

Junior Gros.