quinta-feira, 4 de julho de 2013

Souvenirs

Não há carrasco como a memória. Você pode fugir, se esconder, trocar de nome, mas, jamais conseguirá livrar-se das lembranças. Por quê? Embora elas estejam todas armazenadas dentro do cérebro  todo o seu sistema sensorial pode servir de faísca para, em uma fração de segundos gerar uma descarga forte o suficiente para desenterrar tesouros [ou coisa que o gato enterrou], dos confins mais remotos da sua memória. Digo isso por experiência própria. No meu caso, o fio desencapado tem localização conhecida, fica acima da boca e abaixo dos olhos.
Minha memória olfativa é tão certeira que, um breve contato como cheiro de óleo de linhaça, consegue me fazer lembrar do atelier onde fiz aulas de pintura, mesmo após quase vinte anos. Ou lembrar da minha primeira aula de guitarra, ao sentir um cheiro específico de madeira. Olhando por esse lado, ter essa facilidade de conexões sensoriais é ótimo. Realmente é. Porém, há o outro lado da moeda, o das lembranças não tão inocentes.
Dia desses, estava em uma esquina qualquer, quando alguém, uma mulher, passou por mim e dobrou a esquina. Mal a guria passou, seu perfume foi percebido pelo meu olfato e Bum! Imediatamente fui soterrado por uma avalanche de lembranças e sensações. Aquele perfume, literalmente, me fez sentir na pele o poder de uma memória. Cada toque da pele, cada textura, cada roçar de unhas. Juro que consegui até sentir na ponta da língua o sabor dos lábios, do corpo, enfim. Por um instante, quase deu para ouvir os sussurros ao pé do ouvido.
Quando dei por mim, estava ali, parado na calçada, olhando para o nada. Demorei um tempo para lembrar para onde estava indo. Tudo culpa da minha memória. Se todo super-herói possui um ponto fraco, uma criptonita, comigo, um simples mortal, não seria diferente. Minha criptonita é vendida em frascos de varias cores, marcas e tamanhos. Estão espalhados por aí em pescoços, mãos, colos. Usados pelas vilãs que me põem na lona. Estão por aí, em corpos de mulheres.

Junior Gros.