sexta-feira, 20 de julho de 2012

A vidente

A campainha tocou...tocou...tocou. “vou ignorar, talvez a pessoa desista.”
Pééééé! “Que maldição, deveria haver uma lei proibindo as pessoas de ir à casa das outras aos sábados de manhã. Principalmente se o visitado, assim como eu, estiver de ressaca.”E a campainha toca novamente. “Não tem jeito, vou ter que atender.”
Vou até a porta, espio pelo olho mágico. Do outro lado, um sujeito esquálido, vestindo terno, sua aparência lembra muito um agente funerário. “Será que eu morri? Não, não me sentiria tão podre se estivesse morto. Até porque se eu estivesse morto, não seria a minha campainha que ele tocaria.” Abro a porta.
-- Bom dia.
-- Bom dia, pois não.
-- O senhor e o Senhor João?
-- Você vem fazer perguntas difíceis a essa hora. Volte ao meio-dia e saberei a resposta.
Com cara de quem não achou a menor graça, o sujeito olha o relógio.
-- Sim, sou eu, em que posso ajudá-lo?
-- Senhor João, trago comigo uma intimação para...blablablabla...
Macacos me mordam, não acredito que depois tudo, ela ainda quer guerra”
-- Ok, onde eu assino?
-- Na linha pontilhada.
-- Algo mais?
-- Não senhor, somente isso. Tenha um bom dia.
-- Obrigado.
O sujeito vira as costas e sai andando em direção ao elevador. Fecho a porta, o ranger das dobradiças me lembram da ressaca.
Não lembro de muita coisa, mas a noite deve ter sido boa, bem, nem tanto, se tivesse sido mesmo boa, não estaria sozinho na cama.”
Analgésico, preciso de um analgésico. A gaveta do criado mudo”. Nada. ”A cozinha”. Nada. “Claro, o armário do banheiro”. Nada.
Não sobreviverei até o fim do dia com essa maldita dor de cabeça. O jeito é ir até a farmácia.
Já sei, vou comer alguma coisa, talvez ajude”. “Vamos ver o que tem na geladeira”. Só água. “Ainda bem, essa sede tá me destruindo.”
Vou até o armário da cozinha. "Um macarrão instantâneo não cairia mal”. Nada.
Vou ao quarto, troco de roupa. Minha cabeça dói. Vou ao banheiro, me olho no espelho, minha aparência tá pior que a de um pedinte.
Abro a porta, caminho pelo corredor. Minha cabeça dói. Posso ouvir a vizinha com o volume do som no talo e o pior, ela canta junto. Minha cabeça dói ainda mais. Chamo o elevador. Meu estômago também dói.
O elevador chega, entro, a porta se fecha. Não lembrava o quanto aquela geringonça é barulhenta. Minha cabeça dói. “Nunca mais vou beber”.
Chego na farmácia.
-- Me dá um analgésico.
-- Qual? Pergunta a balconista.
-- Para dor de cabeça.
Em tom de de deboche ela pergunta:
-- Ressaca?
-- É. Tá na cara, né?
Ela sorri e vai até o fundo da farmácia e volta trazendo com ela um punhado de coisas.
-- Tome esses aqui, até o fim da tarde você se sentirá novo.
-- Assim espero.
Ela sorri. Retribuo ao sorriso e completo.
-- Escute, você é minha testemunha. Nunca mais vou beber de novo.
-- Não que eu não acredite na sua determinação, mas se o senhor soubesse a quantidade de vezes que eu ouço isso todas as semanas...
-- Acho que o verei novamente, comprando o mesmo “combo ressaca”.
Saio da farmácia, entro no restaurante, pego algo para comer. Na volta pra casa, penso nas palavras da moça da farmácia. 
Promessas. O ser humano vive delas. De fazê-las e quebrá-las. Prometendo isso, aquilo. Prometendo não mais prometer.
Em casa, como, ou melhor, tento comer. Tomo os remédios, alguns deles são ruins feito a peste. Minha cabeça ainda dói.
Deito na cama, um cochilo me fará bem.
O telefone toca...toca...toca. “Hoje é o dia”.
-- Alô.
-- João, como é que tu tá?
-- Horrível.
-- Deixa disso. Tô ligando pra te convidar pra um churrasco daqueles. Vamos lá, tomar umas cervejas.
-- Cerveja? Nem a pau. Se eu for, ficarei no suco.
Mesmo a contragosto, vou ao tal churrasco.
Chegando lá, nem bem me sento vem um balde cheio de cervejas e um copo.
É. A guria da farmácia tinha razão. Será que ela tem os números da loteria?”

Junior Gros