sábado, 2 de junho de 2012

A saga de Waldinho

 O nascimento de uma criança por si só já é motivo de festa, quando esse nascimento representa mais do que a chegada que um novo membro para família, mas a continuidade do legado, é um acontecimento ainda mais importante. A expectativa era grande pela vinda do novo herdeiro, o menino daria continuidade a linhagem da tradicional família de palhaços.
 O garoto nasceu, ganhou o nome de Waldemar, nome importante dentro do universo de sua família. Nos primeiros meses de vida não havia diferença entre o pequeno Waldemar e as demais crianças da sua idade, aí é que estava o problema essa normalidade inquietava a família, sobretudo de seus pais. Afinal, não era natural um descendente de uma lendária família de palhaços não ter graça. Não que fosse completamente insosso, mas era meramente “engraçadinho”, tal qual uma criança comum, causava nas pessoas não mais que o riso comum, provocado por quedas, ou por sorrisos da sua boca desdentada.
 Os meses passaram e Waldemar, ou Waldinho como era chamado pela família, continuava o mesmo, sua normalidade por muito pouco não causou a separação de seus pais, afinal, era inconcebível um ícone da palhaçada gerar fruto tão sem graça. A mãe, indignada com tamanho ultraje, fez questão de um exame de paternidade, o resultado não poderia ser outro, o garoto era filho de ambos, era fruto daquela família.
 Quando chegou a hora de ir à escola as coisas pioraram, Waldemar tinha cara de palhaço, pinta de palhaço, mas não tinha graça. Seus pais o incentivavam a passar muito tempo com seus avós e tios, talvez assim encontrasse seu “palhaço interior”, embora houvesse boa vontade por parte de toda a família, Waldinho não mudava, acontecia justamente o contrário, sua aparência era motivo de piadas constantes, afinal, que palhaço era aquele que não tinha graça?
 À duras penas Waldemar sobreviveu ao ensino fundamental. Tornara-se um adolescente recluso, imerso em livros e filmes. Quando não estava na escola, estava trancado em seu quarto, lendo, escrevendo, ouvindo música. Falava pouco, quando se expressava era de maneira ácida e irônica, não tinha muitos amigos, na verdade colecionava desafetos, situação que o fez começar a praticar boxe. O que começou como uma forma de defesa passou a ser uma paixão, assim como a literatura.
 Aos 25 anos de idade Waldemar era um lutador de sucesso, escritor cultuado, mas continuava sem graça. Nas reuniões de família, nas raras ocasiões em que sua ausência era questionada, a pergunta sempre vinha acompanhada com um certo tom de pena, principalmente quando eram comentadas suas aparições em programas de televisão ou capas de revistas, Waldemar era a ovelha negra da família, conhecido, cultuado e sem graça.
 Waldemar era dono de seu mundo. Era quem sempre quis ser. Não o palhaço dos palhaços, não o futuro gênio que sua família tanto esperava. Apenas o autor do próprio espetáculo. Nu, cru, de cara limpa e, assim como a vida real, nem sempre agradável.
Junior Gros.

3 comentários:

Mariana Carvalho disse...

Waldemar deve ser da familia das ovelhas negras e nao dos palhaços!! um espirito que naosceu no corpo errado talvez...
"Viver!/E não ter a vergonha De ser feliz/Cantar e cantar e cantar/A beleza de ser Um eterno aprendiz."

Milene Lopes Dias disse...

Que lindo!

Camila disse...

Cada um tem o direito de buscar a própria felicidade. Se for para ser uma ovelha negra, que seja uma ovelha feliz e sonhadora. ;)