segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A luz de velas.

Você já pensou em morrer hoje?
Eu sei, é uma pergunta um tanto mórbida, principalmente, se feita assim a sangue frio, mas trata-se apenas de tocar em algo que parece ser assunto proibido, certamente pelo temor [a meu ver indevido] que as pessoas sentem pela morte, vejo como indevido por ser, talvez, a única coisa certa na vida de todo ser humano, pois todos nascem, então todos morreremos um dia, pelo menos foi sempre assim até hoje. Até a segunda metade do século passado as concepções e gestações aconteciam de maneira natural, passando posteriormente a ter a possibilidade de manipulação em laboratório, e as coisas evoluem mais e mais nesse sentido, pode escolher os pais, as mães, quando e como nascerá o bebê, talvez, futuramente, quem sabe, será possível fazê-lo também com a morte, viver muito mais, o que tornaria acontecimentos [nascimento e morte] tidos como "de vontade divina", controlados pelo ser humano e sua ciência, muitos certamente torcem para que esse dia chegue e possam ver longe de si a tão temida Sra. Morte.

Hoje as horas do dia arrastaram-se como se os ponteiros de todos os relógios estivessem presos, e um misto de ansiedade e angústia toma conta de mim, logo que acordei tinha em mente que ao cair da noite estaria em sua presença, pois em sonho ela anunciou sua vinda, com isso em mente acordei antes do horário de costume, fiz algumas ligações e fui a alguns lugares, nada deveria estar fora do lugar pois muita coisa estará em jogo esta noite, não haverá retorno.
Então na hora combinada tudo estava em seus lugares, a mesa posta, as flores na água, as velas acesas, na hora marcada a campainha anunciava que havia chegado, abri a porta , um silêncio ensurdecedor pairava no ar, sem dizer uma só palavra olhou-me nos olhos e adentrou ao recinto.
Já passei por muitas coisas nessa vida, mas nunca vivi situação como essa, não sabia o que dizer, não sabia o que pensar, não sabia o que fazer nem sabia ao menos o que esperar naquele momento. Eis que seu olhar frio pousou sobre mim, fitando-me de cima a baixo, olhou em meus olhos fixamente por alguns instantes e disse.:
_ Boa noite!
Respondi sentindo como se meu coração batesse em minha boca, ela prosseguiu.
_ Conforme anunciado estou aqui, vejo que você foi minucioso, tudo está justamente como lhe foi pedido.
Assenti com a cabeça, pois não consegui dizer mais nada, ela percebendo o terror que tomava conta de mim e fazia-se nítido em minha face, tomou então minha mão e disse.:
_ Sei que anunciar minha vinda em um sonho não a tornou mais branda, mas tanto eu como você sabemos que um dia isso deveria acontecer, então não entendo o por que de todo este pavor.
Disse a ela que sabia da eminência daquele encontro, sempre soube, porém a forma peculiar como aquilo estava acontecendo me trazia muito pavor.
Houve um instante de silêncio, e num tom compreensão voltou-se para mim dizendo.:
_ Entendo, eu geralmente costumo vir sem aviso prévio, ou ao menos sem hora marcada, mas desta vez, no seu caso preferi anunciar-me ao invés de simplesmente bater a sua porta.
Incrédulo, num esforço tremendo para colocar-me de pé, levantei com a confusão dominando minha mente, olhei ara ela fixamente e perguntei.:
_ O que eu tenho que me torna diferente das outras pessoas?
Em um tom sarcástico ela me respondeu.:
_ Com exceção da esquizofrenia, realmente nada que o diferencie de todos os outros.
Mais confuso ainda voltei a confrontá-la.:
_ Então por que minha morte será diferente da de todos os outros?
Ela gargalhou por um momento e então exclamou.:
_ Morte? Quem disse que você irá morrer hoje?
Um misto de felicidade, indignação e dúvida tomaram conta de mim, então perguntei a ela do que se tratava tudo aquilo, aquele cenário, as flores, a mesa, as velas, o vinho, pois com exceção deste último, todos os outros itens formavam um ambiente fúnebre.
Novamente ela riu, voltou-se para mim e disse.:
_ Não, você não entendeu, as flores são para perfumar o ambiente, as velas porque por razões obvias, eu não gosto de luz, e a mesa para podermos conversar, e o vinho para não ficarmos com nossas gargantas secas durante a conversa.
Sentamos então, conversamos durante horas, sobre a vida e sobre trabalho, que no caso dela consistia exatamente em extingui-la, tomamos mais que apenas uma única garrafa de vinho, já se fazia madrugada quando olhou para o relógio na parede, levantou-se dizendo.:
_ Nossa, se faz tarde, preciso ir, ainda há muito a fazer!
Abri a porta para ela, e sem que eu pudesse ao menos me despedir, saiu pela porta dizendo.:
_ Obrigado pela conversa e pelo vinho, um dia nos veremos novamente!
Temer a morte pode, em alguns casos, até salvar nossas vidas, mas, mesmo assim, creio que devemos viver e aproveitar nossas vidas, porque dificilmente a morte virá a nós anunciar sua vinda, e creio que, mais difícil ainda, será ela nos visitar para conversar e beber vinho.

Junior Gros.

3 comentários:

Lív disse...

Junior...como você escreve bem hein!

Jacqueline disse...

Sempre, mon cher!

Bruno BB (DBM) disse...

Do I have to fall asleep with roses in my hand?
Irado, Ademir Chronicles!!